Mudança na PGV e novos critérios técnicos criam caminho para fortes reajustes e podem elevar IPTU de Curitiba em até 124%; condomínios horizontais, bairros valorizados e imóveis com cadastro alterado estão entre os mais atingidos.

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A Câmara Municipal aprovou, em regime de urgência, o Projeto de Lei Complementar (002.00023.2025) de Eduardo Pimentel que altera profundamente a forma como Curitiba calcula o valor venal dos imóveis e, consequentemente, o IPTU. A decisão acelera a tramitação e reduz o espaço para discussão de um texto que, na prática, permite que o imposto dobre ou até seja mais que dobrado em quatro anos.
O próprio projeto fixa um limite de aumento anual de 18% + IPCA ou R$ 290 — aplicando-se o valor maior. Num cenário de inflação moderada, esse teto permite aumentos anuais de aproximadamente 23%, o que acumulado entre 2026 e 2029 ultrapassa 124%. Ou seja: um IPTU que hoje custa R$ 1.000 pode chegar perto de R$ 2.240.
Tudo isso aprovado em urgência, sem debate público amplo e sem simulações de impacto para cada região da cidade.
Quem será mais afetado com as mudanças
A reestruturação da Planta Genérica de Valores (PGV), somada a novos coeficientes de valorização criados pelo projeto, torna o impacto desigual entre os bairros e perfis de imóveis. Alguns grupos sentirão aumentos muito acima da média.
Bairros nobres e regiões valorizadas
Áreas como Batel, Água Verde, Ecoville, Bigorrilho, Cabral, Juvevê, Seminário e Vila Izabel sofreram forte valorização imobiliária. Como o projeto autoriza que o valor venal acompanhe o preço de mercado e as mudanças de zoneamento, esses bairros devem estar entre os que terão os maiores aumentos no IPTU.
Apartamentos em condomínios verticais
O texto passa a considerar fatores como:
- andar do apartamento,
- padrão do edifício,
- bairro/microbairro,
- idade da construção,
- uso e diversificação.
Isso significa que edifícios no Centro, Centro Cívico, Água Verde, Cabral, Portão e Bigorrilho tendem a ter alta expressiva no valor venal — e, portanto, no imposto.
Condomínios horizontais — um dos grupos mais penalizados
O PL inclui um coeficiente específico para condomínios horizontais, que pode multiplicar o valor venal em até 2,5 vezes.
Bairros com forte presença desse tipo de moradia, como Santa Felicidade, Campo Comprido, Mossunguê, Orleans, São Braz, Cascatinha e Pilarzinho, podem ver aumentos especialmente pesados.
Áreas que receberam obras ou melhorias recentes
Como o projeto permite aumentar o valor venal em função de:
- pavimentação,
- obras públicas,
- abertura de eixos viários,
- melhorias de infraestrutura,
bairros populares como CIC, Tatuquara, Cajuru, Uberaba, Sítio Cercado, Bairro Novo, Boa Vista e Fazendinha também podem ser fortemente afetados — irônico, considerando que as obras financiadas pelo contribuinte retornam como aumento do próprio imposto.
Imóveis com cadastro atualizado desde 2022 — sem limite de aumento
O projeto exclui do teto anual os imóveis que tiveram:
- ampliação,
- reforma,
- mudança de uso,
- alteração de padrão,
- regularização,
- mudança de zoneamento ou sistema viário.
Ou seja, nesses casos o aumento pode ser ainda maior que os 124% calculados sobre o teto.
Isso atinge especialmente regiões como CIC, Tatuquara, Boqueirão, Uberaba, Pinheirinho e Sítio Cercado.
Comércios e imóveis de uso misto
Com a inclusão de novos fatores como obsolescência, localização e diversificação de uso, imóveis comerciais em áreas como Centro, Rebouças, Portão e Centro Cívico também devem registrar aumentos significativos.
Urgência para um projeto que pesa no bolso do curitibano
O regime de urgência aprovado pelos vereadores retira da população a chance de discutir um projeto que mexe diretamente na vida de todos.
Apesar de ser apresentado como uma “modernização técnica”, o PL:
- aumenta os fatores que elevam o valor venal,
- cria mecanismos para revisões mais frequentes,
- permite aumentos acumulados superiores a 124%,
- e ainda abre brechas para reajustes sem limite em imóveis atualizados desde 2022.
No fim, quem pagará a conta serão os moradores de bairros valorizados, os responsáveis por condomínios verticais e horizontais, comerciantes e quem vive em regiões onde a própria prefeitura realizou obras nos últimos anos.
