Edital de R$ 1,7 milhão inclui monitoramento diário de imagem, produção de conteúdo e presença midiática — estrutura que pode impulsionar a visibilidade do pré-candidato com verba pública.

Imagem postada no Instagram de Ratinho Junior, com o governador ao lado de Guto Silva. (Foto: Reprodução/Instagram)
A poucos meses do início oficial da corrida eleitoral de 2026, a Secretaria de Estado das Cidades — chefiada pelo principal nome cotado para suceder Ratinho Junior no governo — abriu uma licitação de R$ 1.682.907,12 para contratar serviços de comunicação institucional. O edital, publicado pela pasta comandada por Guto Silva, prevê o uso de recursos não vinculados de impostos (Fonte 500) para montar uma operação de mídia robusta, com quase 14 mil horas de serviços estimados ao longo de apenas 12 meses.
O gasto chama atenção não só pelo valor, mas principalmente pelo timing. Trata-se de uma das maiores contratações de comunicação feitas por uma secretaria individual no atual governo — justamente a secretaria do pré-candidato considerado “natural” à sucessão em 2026 dentro do Palácio Iguaçu.
Um contrato eleitoralmente conveniente
O edital exige plano estratégico de comunicação, monitoramento diário de mídia, análise de imagem, produção contínua de conteúdo, atendimento à imprensa, relatórios e ações para fortalecimento da presença pública da pasta. Embora esses serviços sejam apresentados como comunicação institucional, eles podem impactar diretamente a exposição pública do secretário, que desponta como pré-candidato ao Governo do Estado.
O contrato prevê quase 40 horas mensais apenas para o “Plano Estratégico e Operacional”, a R$ 140 por hora, além de blocos de serviço que ultrapassam R$ 61 mil individualmente. Ao fim, o valor total se aproxima de R$ 1,7 milhão pagos pelo contribuinte.
Fonte do recurso e critérios do edital levantam questionamentos
A opção por utilizar verbas da Fonte 500 — recursos não vinculados — também gerou críticas, já que esses valores poderiam ser empregados em áreas essenciais como infraestrutura, regularização fundiária, fiscalização ou obras, que são funções diretas da Secretaria das Cidades.
A licitação foi estruturada no modelo de “técnica e preço”, com peso 7 para técnica e 3 para preço, em formato fechado. Embora legal, a modalidade é menos transparente para o público e tende a favorecer empresas com maior histórico junto ao governo, além de reduzir a competitividade e potencialmente elevar custos.
Uma superestrutura de comunicação em ano pré-eleitoral
Na prática, o escopo contratado — análise diária de imagem, presença midiática estratégica, relacionamento com imprensa e produção permanente de conteúdo — recai sobre a figura de quem comanda a pasta. Em ano pré-eleitoral, isso significa ampliar a vitrine de Guto Silva com recursos públicos, enquanto sua pré-candidatura ganha tração interna e externa.
A pergunta que permanece: por que a necessidade de uma estrutura tão robusta surgiu justamente agora?
O que diz o governo
Procurado pela reportagem, o Jornal O Plano enviou uma lista de perguntas à Secretaria das Cidades, questionando a necessidade, o momento, a forma da contratação e o possível impacto eleitoral do contrato. As questões também abordavam a escolha dos recursos da Fonte 500, a ausência de contratos semelhantes em anos anteriores e a diferença entre a estrutura já existente e a superestrutura prevista no edital.
A Secretaria das Cidades encaminhou a demanda à Secretaria de Estado da Comunicação, que enviou a seguinte nota:
**“A Secretaria de Estado da Comunicação instituiu uma política de comunicação pública no Paraná, norteada pelo Decreto 4.276/2023, que tem como objetivo aumentar a transparência das ações governamentais e garantir que jornalistas tenham acesso a dados.
Desta forma, o governo segue práticas de mercado ao apostar na redução da máquina pública contratando agências responsáveis por manter jornalistas que atuam no atendimento das redações — modelo amplamente utilizado pelo governo federal, governos estaduais e agências reguladoras.
Os serviços são contratados pela Secretaria da Comunicação através de licitações públicas, seguindo a legislação e com minutas padrão aprovadas pela Procuradoria-Geral do Estado. Elas vão abranger, a médio prazo, todas as secretarias e órgãos.
O valor apresentado necessariamente não será investido porque o processo licitatório tem como base o menor preço e a melhor proposta técnica.”*
A Secretaria não respondeu diretamente aos seguintes pontos enviados pela reportagem:
- por que a necessidade surgiu apenas agora, às vésperas de um ano eleitoral;
- se existiram contratos semelhantes em anos anteriores;
- qual é a diferença entre a estrutura atual e a prevista no edital;
- qual o estudo técnico que justifica quase 14 mil horas de serviços;
- quantos servidores já atuam na comunicação da pasta;
- se houve consulta à CGE, PGE ou Ministério Público sobre risco eleitoral;
- e se o governo está disposto a suspender o processo até manifestação de órgãos de controle.
A pergunta que permanece
Mesmo após a nota oficial, persistem dúvidas centrais sobre a oportunidade, dimensão e finalidade prática da licitação, considerando o momento político e o protagonismo eleitoral do secretário da pasta.
Em meio ao discurso de austeridade e à espera de recursos para obras essenciais, um contrato de quase R$ 1,7 milhão em comunicação institucional continua parecendo mais sintonizado com as demandas da pré-campanha de 2026 do que com as necessidades da população paranaense.
