
Fila de Ambulâncias em Curitiba. Foto: Kainan Lucas/Banda B
O inicio de 2026 ratificou que a saúde pública no Paraná é um sistema exausto que gira em torno de poucos polos de alta complexidade concentrados em Curitiba e região metropolitana. Corredores lotados, ambulâncias em fila e famílias esperando notícias do lado de fora dos prontos-socorros se tornaram cena rotineira nos hospitais de referência da capital, enquanto o governo estadual insiste em tratar o quadro como “pressão sobre o sistema”, e não como colapso. Em paralelo, o governador Ratinho Junior escolhe o caminho das férias, deixando um vácuo simbólico de comando justamente no momento em que o Paraná vive mais um ciclo de caos na saúde pública.
Nos últimos anos, hospitais como o do Trabalhador, o Universitário Evangélico Mackenzie e o Cajuru, referências em trauma e alta complexidade, todos lotados em Curitiba, vêm operando sistematicamente acima da capacidade, com superlotação que obriga a restringir atendimentos e reorganizar fluxos de emergência. Em diferentes momentos, o cenário incluiu pacientes internados em macas de pronto-socorro, ocupação total de leitos e necessidade de abrir leitos “emergenciais” improvisados, uma estratégia que alivia manchetes, mas não resolve a crônica insuficiência de estrutura e pessoal. Na prática, o colapso se materializa em ambulâncias paradas à porta dos hospitais enquanto o tempo clínico se esgota.
A pressão não vem apenas dos traumas e acidentes, mas também do aumento de complicações de doenças crônicas que não encontram resposta oportuna na atenção básica. Com a falta de resolutividade na porta de entrada do sistema, mais pessoas chegam em estado grave às portas dos hospitais disponiveis disputando vaga em UTIs e enfermarias já saturadas. Cada ambulância que chega de outra cidade do Paraná é o retrato de uma rede que falhou em distribuir a assistência de forma equilibrada pelo território. O dado que torna esse quadro ainda mais grave é a ausência de abertura de novos hospitais no estado. Ao entrar em 2026, a estrutura de média e alta complexidade permanece praticamente a mesma de anos anteriores, apesar do aumento previsível da demanda. Não houve entrega de novos grandes hospitais regionais nem consolidação de polos robustos no interior capazes de absorver parte significativa dos casos graves. O resultado é um funil perverso: tudo se concentra em Curitiba e região metropolitana, e a capital passa a carregar o peso de uma política que naturalizou a centralização.
Em setembro de 2025, o governo estadual transferiu a regulação do Samu do Litoral do Paraná para a Central de Regulação de Urgência de Curitiba, visando agilizar encaminhamentos de pacientes graves diretamente para hospitais da capital, devido à falta de capacidade local para casos complexos. A mudança, acordada em reunião da Comissão Intergestores Bipartite (CIB), beneficiou cidades litorâneas com acesso mais rápido a leitos em Curitiba. Ao longo de 2025, o Samu Paraná registrou 1.044.882 envios de equipes, muitos resultando em transferências via regulação médica para centros de alta complexidade em Curitiba, especialmente para atendimentos clínicos adultos (706.234 casos) e pediátricos (45.925), por limitação de serviços no interior. No mês passado, anúncios do governo destacaram a entrega de novos hospitais em Pinhais e Rio Branco do Sul (próximos a Curitiba), mas ainda assim, pacientes de outras regiões continuarão dependendo da capital.
Nesse contexto, a decisão do governador de se ausentar em férias não é um detalhe burocrático da agenda oficial, mas um gesto político que comunica prioridades. Em vez de liderar pessoalmente a coordenação de medidas emergenciais, como abertura estruturada de leitos, reforço de equipes, reorganização de fluxos regionais, pactuação com municípios e transparência plena de dados, Ratinho Junior se afasta no momento em que a população enfrenta filas, portas lotadas e falta de leitos. A mensagem implícita é de que a crise pode ser administrada em “piloto automático”, enquanto a vida real nas portas dos hospitais desmente esse discurso.
A insistência do governo estadual em evitar o termo “colapso” e falar apenas em “alta demanda” ou “pressão” revela uma estratégia de comunicação voltada a conter danos políticos, mas não a enfrentar as causas estruturais do problema. A superlotação recorrente nos grandes hospitais é fruto, sobretudo, do subfinanciamento da média e alta complexidade, bem como da fragilidade da atenção primária em muitos municípios e a ausência de um plano consistente de expansão da rede, com novos hospitais e fortalecimento de serviços regionais. Um discurso totalmente desconectado da realidade de quem espera por um leito. Enquanto o governo se acomoda em promessas genéricas de investimentos futuros e ajustes pontuais de leitos temporários, a realidade escancara a porta da hipocrisia. Não se trata de sazonalidades em saúde, mas consequência direta de uma escolha política: manter a saúde pública do jeito que sempre esteve, sem regionalização adequada e trazendo respostas pontuais e midiáticas.

