
Os resultados do Enamed 2025 são um reflexo da crise de qualidade na formação médica brasileira: mais de 100 cursos, quase um terço dos avaliados, obtiveram conceitos 1 e 2, considerados insatisfatórios pelo MEC. As piores notas concentram-se em instituições públicas municipais, onde 87,5% dos cursos ficaram nas faixas mais baixas, seguidas pelas faculdades privadas com fins lucrativos, das quais 58,4% apresentaram desempenho insuficiente. Apenas 49 dos 351 cursos avaliados alcançaram a nota máxima, enquanto 24 amargaram o conceito 1, o mais baixo possível. Enquanto universidades federais e estaduais mantiveram 87,6% e 84,7%, respectivamente, dos cursos nas faixas mais altas, o setor privado lucrativo e as instituições municipais concentraram os piores indicadores.
A resposta do MEC veio com promessas de punição às instituições com notas mais baixas: 8 cursos terão ingresso de novos alunos suspenso e estão excluídos do Fies e de outros programas federais; 13 cursos precisarão reduzir pela metade o número de vagas e também ficarão sem acesso ao Fies; 33 cursos terão corte de 25% nas vagas, além de suspensão em programas federais; e 45 cursos estão proibidos de ampliar vagas. Segundo o ministro Camilo Santana, das 107 instituições reprovadas, 99 serão efetivamente punidas, já que faculdades estaduais e municipais fogem à competência direta do ministério. No paraná, 21 cursos foram avaliados e as universidades com as melhores notas foram: UEM (Maringá), UFPR Campus Toledo, UEPG (Ponta Grossa), Unicentro (Guarapuava), UP (Curitiba) e FPP (Curitiba) – todas com nota 5. Por outro lado, as piores notas foram a UNIPAR (Umuarama), UNINGÁ (Maringá) e UNILA (Foz do Iguaçu) – com nota 2 e devem sofrer as sanções propostas pelo MEC.
Entretanto, o cenário de notas baixas é reflexo direto de uma política de abertura indiscriminada de vagas em Medicina promovida nos últimos anos. O Brasil assistiu a uma multiplicação de cursos — sobretudo privados com fins lucrativos — sem que houvesse estrutura docente, ambulatorial e hospitalar compatível com a demanda. No governo Dilma Rousseff, o Programa Mais Médicos, lançado em 2013, veio acompanhado da previsão de criação de 11.447 vagas de graduação em Medicina até 2017, distribuídas em 117 municípios, com foco declarado na interiorização da formação. Em apenas três anos e meio de gestão Dilma, foram autorizados 44 novos cursos de Medicina, número que corresponde a 76% de todos os cursos abertos em oito anos de governo Lula, marcando o início do ciclo recente de expansão acelerada.
Durante o governo Michel Temer, em 2018, foi decretada uma moratória de cinco anos para criação de novos cursos de Medicina, alegando necessidade de conter um crescimento desordenado e proteger a qualidade da formação. Mesmo com a suspensão formal, decisões judiciais e editais anteriores permitiram a continuidade da expansão: centenas de vagas e novos cursos foram autorizados por liminares, fora do planejamento original do MEC. O governo Jair Bolsonaro manteve a moratória de Temer, mas fez ao menos duas tentativas de revogar a suspensão e reorganizar a abertura de vagas por meio de medidas provisórias e portarias que, em parte, foram revertidas após pressão de entidades médicas.
Em 2022, sob Bolsonaro, o MEC chegou a editar norma para ampliar vagas em cursos já existentes, mas a portaria foi revogada após contestação do Conselho Federal de Medicina, que alertou para o risco de piora na qualidade. Com o fim da moratória em abril de 2023, o MEC voltou a autorizar novos cursos de Medicina em instituições privadas, por meio de chamamentos públicos, retomando oficialmente a política de expansão iniciada na era Mais Médicos. Entre janeiro de 2024 e setembro de 2025, o país ganhou 77 novos cursos e 5.461 vagas adicionais; o Brasil passou a ter 494 escolas médicas e cerca de 50.974 vagas anuais, das quais 80% em instituições privadas, refletindo forte pressão do lobby educacional e de prefeitos.
Ainda assim, o custo de estudar Medicina no Brasil tornou-se um filtro econômico brutal. As mensalidades oscilam entre R$ 8 mil e R$ 13 mil podendo ultrapassar R$ 12 mil em grandes centros. Já no Paraguai, os valores ficam entre R$ 1.270 e R$ 1.717 mensais — economia superior a 70% em relação ao Brasil. Na Bolívia, o cenário é ainda mais acessível: mensalidades entre R$ 700 e R$ 2 mil, e universidades públicas argentinas oferecem ensino gratuito. Um levantamento do Itamaraty estima que cerca de 65 mil brasileiros cursam Medicina no Paraguai, Bolívia ou Argentina. E essa combinação de mensalidades acessíveis, ausência de vestibular concorrido e proximidade geográfica atrai milhares de jovens que não conseguem pagar ou acessar vagas públicas no país de origem.
O Brasil vive um paradoxo: de um lado, autoriza a abertura massiva de cursos privados sem garantir padrão mínimo de qualidade; de outro, pratica preços que excluem a maior parte da população do acesso à formação médica. O resultado é um duplo movimento: faculdades de baixa qualidade formando profissionais com desempenho insatisfatório e estudantes de classe média migrando para países vizinhos em busca de mensalidades viáveis. O Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica) se propõe, nesse contexto, como uma tentativa tardia de frear a deterioração — mas expõe uma contradição estrutural: a política de expansão de vagas, conduzida sem regulação rigorosa, criou um mercado educacional que não entrega qualidade nem acessibilidade formando profissionais com lacunas irreparáveis em sua formação.
