
Fonte: SEMED
O caso que ocupa os pensamentos da maioria dos cascavelenses nos últimos meses, especialmente daqueles que receberam a missão da paternidade, teve o ápice de sua celeuma cessado com o encerramento da CPI no final de 2025. Porém sem a percepção da aplicação da justiça diante do absurdo. O caso envolve o abuso sexual de uma criança em um Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) de Cascavel. A denúncia veio a público em 2020 e, apesar de a legislação prever o afastamento imediato do servidor, o abusador foi apenas transferido de unidade, permanecendo em atividade até sua prisão em 2024.
A repercussão e a revolta dos cidadãos culminaram na abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), que visava identificar falhas sistêmicas no gerenciamento da crise, além de cobrar da atual gestão do Poder Executivo providências para ajustes de processos, responsabilizações administrativas e eventuais demissões, caso ficasse comprovada prevaricação da administração.
Após meses de apuração, o relatório final da CPI do Abuso, instaurada na Câmara Municipal de Cascavel, foi lido em plenário no dia 19 de novembro. O documento, com mais de 1.200 páginas e dezenas de depoimentos, recebeu aprovação unânime dos vereadores e foi oficialmente encaminhado ao Ministério Público do Paraná.
A comissão foi composta pelos vereadores Everton Guimarães (presidente), Hudson Moreschi (relator), Contador Mazutti (secretário), Valdecir Alcantara e Dr. Lauri (membros). A CPI foi finalizada com apontamentos de medidas pontuais e cautelares, embasadas no histórico do ocorrido.
“Os depoimentos de Pollyanna Caxias Souza Ramos e Fabiana Mariano confirmam, de forma inequívoca, que o Agente de Apoio permaneceu em contato direto e regular com crianças no CMEI Vicentina Guisso, nos anos de 2022, 2023 e 2024, realizando atividades como troca de fraldas, recepção na porta e acompanhamento dentro da sala de aula”, declarou Hudson Moreschi. Somam-se a esses relatos os depoimentos de mais 22 servidores que atuaram nos CMEIs, os quais permitiram que a CPI concluísse, ainda que de forma preliminar, a existência de falhas sistêmicas na rede municipal.
O relatório também sugeriu, diante da possibilidade de atitudes prevaricatórias, a abertura de Processos Administrativos Disciplinares (PADs) para averiguar e punir qualquer conduta comprovadamente danosa à segurança das crianças, decorrente de irresponsabilidade, carência de gestão, desorganização administrativa ou omissão diante dos fatos.
Foram indicados para apuração por meio de PAD: Cátia Simone Wermuth, presidente do primeiro processo administrativo contra o abusador; Cletírio Ferreira Feistler, à época controlador-geral do Município; e Márcia Baldini, ex-secretária municipal de Educação.
Ressalta-se que a CPI concluiu não haver indícios diretos de conduta inadequada por parte da ex-secretária, porém solicitou a averiguação de eventuais falhas na gestão da Secretaria Municipal de Educação (Semed). Como figura de liderança da pasta, e diante de fortes indícios documentais de que tinha conhecimento do ocorrido durante a tramitação dos processos, a CPI entendeu que a situação deveria ser devidamente apurada e, caso comprovada atitude prevaricatória, que fossem aplicadas as punições cabíveis.
Entretanto, até o momento, nenhuma das medidas administrativas sugeridas foi cumprida, tampouco houve a abertura de PADs contra os possíveis facilitadores do cenário de risco às crianças nos CMEIs ao longo do período de quatro anos.
Em contrapartida, a ex-secretária, que recebia subsídio mensal de R$ 22.241,68 enquanto estava no cargo, encontra-se agora aposentada e passará a receber dois benefícios previdenciários como servidora municipal: um no valor de R$ 7.196,25 e outro de R$ 7.203,36, totalizando mais de R$ 14.000 mensais, a partir do dia 7 deste mês, formalizado pelos decretos 20.101 e 20.102 de 2026.
A situação reforça a sensação de impunidade entre aqueles que se alinham à gestão, sem receio de represálias, ao contrário do que ocorre com servidores ou cidadãos que ousam criticar as ações da prefeitura. A indignação e a frustração da população são visíveis no olhar dos pais que esperam encontrar, nas mãos do poder público, segurança e proteção para suas crianças contra qualquer intento perverso.
