Belém Não Mostrou o Clima — Mostrou o Caos

A COP 30 não revelou o colapso climático — revelou o colapso administrativo de um país que afirma salvar o planeta sem conseguir salvar a própria casa.  Com um custo de mais de 4 bilhões aos cofres públicos, a conferência em Belém expôs muito mais a incapacidade do governo de organizar eventos do que a suposta calamidade ecológica que vivemos. O encontro foi marcado pelo calor sufocante típico da capital paraense, por chuvas “imprevisíveis” que inundaram pavilhões e por uma invasão indígena, o que levou a ONU, por meio de Simon Stiell — secretário-executivo da UNFCCC, órgão responsável pela COP — a exigir um comprometimento maior do Brasil com a segurança da conferência. Mas, além da gestão desastrada, o que mais chamou a atenção foi a contradição escancarada para o estrangeiro: nossos governantes não tratam pautas ambientais com seriedade. Isso ficou evidente no uso de geradores a diesel para garantir eletricidade — os mesmos que encheram a sala de imprensa de fumaça — e no capricho presidencial de se hospedar em um iate luxuoso, uma vez que as embarcações da Marinha não atendiam às exigências presidenciais. 

Não se pode ignorar também a escolha questionável de Belém como sede da COP. A capital mais favelizada do país está longe de transmitir sustentabilidade: esgoto a céu aberto, urubus rondando o centro e uma sucessão interminável de barracos e cortiços sequestram a visão do turista a cada esquina. Foi exatamente esse conjunto — desordem, improviso e maquiagem institucional — que levou o chanceler a declarar que a Alemanha é “um dos países mais bonitos do mundo” e a admitir que ele e sua comitiva ficaram aliviados por deixar Belém, já que nenhum dos jornalistas que o acompanhavam quis permanecer na cidade. 

Sejamos francos: não foi arrogância europeia — foi um choque de realidade. Enquanto Brasília tenta vender ao mundo a narrativa de potência verde, o que Belém exibiu foi o oposto: um país que prega sustentabilidade enquanto se afoga em lama, fumaça de diesel e promessas vazias. 

O mais chocante, porém, não é a incompetência logística — é a naturalidade com que nossos líderes transformam cada grande evento em palanque, ignorando o básico: se o Estado não é capaz de garantir energia limpa numa conferência do clima, como esperam que alguém leve a sério metas de redução de carbono? Se não conseguem manter suas próprias estruturas funcionando por três dias, por que confiaríamos em um planejamento ambiental para as próximas décadas? 

A COP 30, que deveria ser vitrine, virou espelho. E o reflexo que o mundo viu não foi o de uma nação pronta para liderar debates ambientais, mas o de um país que tenta camuflar decadência com discursos populistas. No fim, a principal lição do evento não veio dos especialistas, mas da própria realidade: antes de salvar o planeta, o Brasil precisa aprender a salvar a si mesmo. 

Belém (PA), 17/11/2025 – Entrada de onde está acontecendo a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP 30), pela noite. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

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