A Guerra Não Declarada: Quando o Estado Perdeu o Céu do Rio

O Rio não pede paz. Pede guerra. Em 28 de outubro de 2025, uma megaoperação contra o Comando Vermelho nos complexos da Penha e do Alemão expôs, de forma brutal, o que muitos fingiam não ver: facções capazes de lançar bombas por meio de drones, empregar armamento pesado e articular uma cadeia logística que funciona como Estado paralelo. A ação mobilizou cerca de 2,5 mil agentes. Terminou com 81 presos até o comunicado oficial, dezenas de mortos (entre eles quatro policiais) e a apreensão de dezenas de fuzis e material bélico. Esses números e imagens não são relâmpagos isolados — são o diagnóstico visível de uma doença em estágio avançado.

Operações desse tipo funcionam primeiro com inteligência prévia: infiltrações informativas, monitoramento de rotas logísticas, mapeamento de lideranças e identificação de pontos de apoio. Em seguida vem a fase de cerco e entrada: patrulhas móveis, bloqueio de saídas, uso de blindados e helicópteros para apoio aéreo. Tudo isso visa isolar o espaço controlado pela facção e capturar lideranças e suprimentos. Mas o que vimos na Penha e no Alemão foi uma resposta diferente — a tática de guerrilha: drones lançando explosivos, barricadas improvisadas, controle de vias urbanas e reação organizada para forçar a retirada policial. Em suma: a operação funciona — prende, mata, apreende — mas, sem ocupação sustentada e medidas que desarticulem a logística e o poder paralelo, o território rapidamente retorna ao status quo.

Esse padrão de longa data — ação episódica seguida de refluxo — explica por que a simples intensificação de operações não basta. Para vencer esse conflito é preciso admitir que se trata de uma guerra não declarada e agir com as ferramentas proporcionais ao inimigo. Por isso proponho, objetivamente, duas medidas imediatas e complementares: intervenção federal com emprego coordenado das Forças Armadas; e, em seguida, instalação de escolas cívico-militares nas regiões que saírem do controle das facções.

A intervenção federal não é fantasia midiática nem utópica: já houve precedentes e existe arcabouço jurídico para seu emprego quando a ordem pública está gravemente comprometida. Em 2018 o país aplicou intervenção na área de Segurança Pública do Rio, sob comando federal, com objetivos explícitos de reorganizar o aparato de segurança e restabelecer presença estatal. É uma medida de exceção que precisa ser usada com planejamento estratégico — não como gesto populista — e com metas claras e transitórias.

Para implementá-la é necessário primariamente um decreto de intervenção que delimite mandato e metas (desarticulação de cadeias logísticas e recuperação de territórios, por exemplo) e que entregue ao interventor — com apoio parlamentar e supervisão judicial — poderes para coordenar polícia, penitenciária e emprego articulado das Forças Armadas em missões de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) quando necessário. As Forças Armadas devem agir para garantir segurança mínima, proteger pontos estratégicos, garantir corredores logísticos e apoiar ações de inteligência, enquanto estruturas civis reconstroem a presença do Estado. A presença militar tem caráter temporário e instrumental: não se trata de substituição da polícia, mas de recuperar o monopólio estatal da força em áreas onde ele foi perdido.

Além disso, a ocupação civil deve acompanhar a estabilização. A longo prazo, faz-se crucial a instalação sistemática de escolas cívico-militares nas regiões que saírem do controle das facções. Essas escolas atuariam como polos de presença estatal continuada — não meras fachadas. Programas pedagógicos com disciplina, civismo e reforço em ensino fundamental e profissionalizante, aliados a projetos sociais e de inserção no mercado de trabalho, têm potencial para quebrar o ciclo de reprodução do crime. A estratégia é dupla: primeiro, a força recupera o espaço; em seguida, a educação e a reconstrução social ocupam o vazio deixado. Essa combinação reduz a retomada rápida por parte das facções. (A implementação requer seleção local, capacitação de professores, contrapartida comunitária e avaliação por metas.)

Juntamente com essas duas medidas centrais, a operação deve ser acompanhada de ações duras contra a economia paralela: bloqueio e rastreamento financeiro, apreensão de bens, controle de rotas logísticas e responsabilização penal de fornecedores. É preciso também tecnologia defensiva contra drones (sistemas de detecção e neutralização), integração de dados entre as agências (inteligência financeira, telecomunicações e patrulhamento) e cortes rápidos na circulação de armamentos. Sem essa articulação, cada megaoperação será apenas espetáculo — eficiente na operação, ineficaz na mudança estrutural.

Não se trata de “militarizar” a sociedade. Nem mesmo de uma militarização permanente, mas sim um uso consciente e temporário do aparato militar para recuperar a soberania do Estado sobre territórios entregues ao crime. A verdadeira militarização seria aceitar que cidadãos vivam sob leis paralelas e que o instrumento da violência legitimada fique a cargo de quem usa fuzil para governar. A escolha é simples: ou o Estado se organiza para retomar o território, ou o terreno será governado por quem aprendeu a voar com drones.

A operação de 28 de outubro mostra o ponto de inflexão: a tecnologia e a tática do inimigo evoluíram — nossa capacidade de resposta precisa evoluir também. Não há espaço para hesitações doutrinárias diante de bombas lançadas do céu sobre quem tenta restabelecer a lei. Intervenção federal bem delineada, seguida de ocupação civil e escolas cívico-militares, não é a utopia pregada por ONGs e burocratas distantes da realidade, mas a tempestade necessária antes da reconstrução. Sem isso, repetiremos o ciclo: incursão, triunfo tático, refluxo e retorno do poder paralelo. E o preço dessa repetição é medido em vidas, medo e na perda lenta do que resta da autoridade do Estado.

A hora de reconhecer a guerra e agir é agora. Ou restabelecemos a ordem com coragem, planejamento e políticas públicas de efeito duradouro, ou aceitamos que o céu do Rio seja, cada vez mais, território de quem quer nos amedrontar.

Foto: Eduardo P / CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

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