
Os casos midiáticos de maus-tratos a animais desencadeiam uma histeria coletiva nas redes sociais, mas revelam a hipocrisia de uma sociedade que se comove seletivamente enquanto ignora a escala cotidiana da crueldade. Quando um cão como “Orelha”, espancado em Florianópolis em janeiro de 2026, viraliza e mobiliza abaixo-assinados instantâneos e pedidos de linchamento virtual, o fenômeno expõe não indignação genuína, mas uma catarse performativa que evapora rapidamente.
A comoção explode em casos chocantes e visuais, como o caso “Orelha” na Praia Brava ou a recente operação policial em Mairiporã (SP), onde mais de 100 animais foram resgatados de uma suposta ONG. Nessas horas, hashtags acumulam milhões de visualizações, celebridades repostam vídeos e entidades como a OAB/SC emitem comunicados exigindo “punição exemplar” alimentando uma narrativa de justiça imediata. No entanto, essa fúria coletiva ignora que, em 2025, canais como a Linha Verde registraram mais de 10 mil denúncias apenas no RJ, com aumento de 18% ante 2024, enquanto abrigos como os do MVAbrigos acolheram 5.325 animais no 1º semestre.
A seletividade é gritante: um vídeo de maus-tratos com apelo emocional paralisa timelines por dias, mas os 858 boletins de ocorrência registrados no Piauí ou as 4.924 ocorrências em MG, ambos em 2024, passam despercebidos, sem petições ou pressão organizada. Essa histeria midiática transforma tragédias individuais em espetáculo moral, mas falha em sustentar pressão por reformas sistêmicas, como delegacias especializadas ou aplicação rigorosa das legislação em vigor.
A contradição central reside na distância entre o escândalo virtual e a omissão prática. Enquanto se clama por cadeia aos agressores do “Orelha”, milhões de cães e gatos sofrem abandono crônico – estimados em 30 milhões no país – sem que a mesma multidão pressione por castrações em massa ou fiscalização de tutores negligentes. A hipocrisia se agrava quando ONGs sobrecarregadas, como as do MVAbrigos, registram saldo positivo de 3.640 animais no 1º semestre de 2025, e a resposta social se limita a doações pontuais após viralizações.
Essa postura seletiva beneficia mais o ego dos indignados – que acumulam curtidas por posts virtuosos – do que os animais. A Lei Sansão (14.064/2020), que endureceu penas para cães e gatos, segue com aplicação frágil, recorrendo a acordos e morosidade, mas ninguém faz campanha contínua por sua efetividade. O que vemos é uma sociedade que chora por um caso midiático, mas tolera a impunidade cotidiana, onde 277 ocorrências no ES (1º semestre 2025) ou 1,2 mil na DEPA do ABC em 2024 evaporam sem eco.
A hipocrisia coletiva só se desfaz quando a indignação midiática se converte em advocacy estrutural: apoio a abrigos, denúncias sistemáticas e cobrança por políticas além do espetáculo. Sem isso, casos como “Orelha” servem apenas como paliativo emocional, enquanto o Brasil acumulou 185 mil resgates em 2024 e crescimentos exponenciais em 2025. A verdadeira transformação exige abandonar a histeria passageira por compromisso duradouro contra a crueldade banal.
