O caso trágico envolvendo o rapaz de 19 anos morto por uma leoa em João Pessoa, escancara tensões entre responsabilidade individual, dever público de proteção e falhas na assistência em saúde mental no Brasil. No dia 30 de novembro de 2025, após invadir deliberadamente o Parque Zoobotânico Arruda Câmara (Bica), escalar um muro de mais de seis metros e superar grades de segurança, Gerson de Melo Machado encontrou a morte. O episódio, registrado em vídeo durante visitação ao parque e amplamente divulgado, reacende debates não apenas sobre sensacionalismo midiático, bem-estar animal e limites da convivência humano-animal em zoológicos, mas também sobre o desafio que é o tratamento de pessoas com transtornos mentais graves. Identificado com esquizofrenia, Gerson viveu em instituições de acolhimento até os 18 anos, tem histórico de mãe e avós também afetados pela doença, ausência paterna e falta de rede de apoio contínua. Durante a vida, acumulou 16 passagens policiais, teve ordem judicial de internação em hospital de custódia sem cumprimento efetivo e enfrentou o abandono familiar e o estatal pós-maioridade.
Contexto da luta antimanicomial e Reforma Psiquiátrica
Iniciada na década de 1980 pelo Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental, a luta antimanicomial no Brasil culminou na Lei 10.216/2001, que promoveu desinstitucionalização via Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e Residências Terapêuticas, bem como a redução de leitos psiquiátricos de cerca de 80 mil para 10 mil, visando cuidados comunitários em liberdade para transtornos como esquizofrenia, em oposição aos manicômios excludentes. No entanto, críticos denunciam abandono de pacientes com doenças mentais complexas: subfinanciamento de CAPS, internações breves insuficientes para crises graves, sobrecarga familiar e aumento de pacientes psiquiátricos em prisões ou ruas, priorizando uma falsa autonomia sem proteção real.
Críticas e o caso como não exceção
Gerson reflete essa “colcha de retalhos”: saído de abrigos sem suporte e apresentando impulsos perigosos comuns em esquizofrenia grave sem tratamento ilustra bem como a Reforma desconstrói manicômios, mas falha em reinserção social gerando riscos à ordem pública e tragédias evitáveis. Retrocessos incluem resistência social, falta de compromisso político para redes intersetoriais e judicialização ineficaz, com famílias isoladas e políticas que expõem vulneráveis Esse caso expõe múltiplas falhas do poder público, questões éticas acerca do consumo de vídeos chocantes e o caos da saúde mental como crise multifacetada. Sobre o último, é necessário equilíbrio: cuidados em liberdade com internações compulsórias para situações de risco iminente, fortalecimento de CAPS com leitos diurnos, supervisão judicial pós-alta, investimentos em prevenção familiar e revisão da Reforma para direitos humanos sem negligência.

